Apenas o começo de uma grande revolução

Redação
agosto28/ 2015

Por Bruno Borges*

Você certamente viu por aí a confusão que está sendo causada pelo crescimento do Uber no Brasil.

O Uber é um aplicativo que conecta motoristas particulares a usuários que serviço começou a dar os primeiro sinais de que poderia tomar mercado dos taxistas, a reação foi imediata, a polêmica se instaurou e a confusão começou.

Os taxistas dizem que o aplicativo é ilegal e que realiza transporte clandestino. O Uber diz que atua dentro da legalidade, apenas fazendo a ponte entre motoristas particulares e usuários que demandam pelo serviço. As autoridades, completamente perdidas diante da disrupção trazida por uma nova tecnologia, somente agora estão começando a tentar regulamentar a situação.

Bem, meu objetivo aqui não é discutir quem tem razão nessa história, mas sim mostrar como serviços como o Uber (transporte), e outros como o Netflix (cinema, entretenimento) e o AirBNB (hospedagem) são apenas a ponta do iceberg de uma tendência que está chegando com tudo: a economia colaborativa.

O que é a economia colaborativa

A economia colaborativa vem ganhando cada vez mais força no mercado mundial, alavancada pela tecnologia e conectividade da internet associadas à mobilidade dos smartphones.

A base da economia colaborativa está no conceito de “experiência ao invés de posse”. Neste modelo, os recursos e bens são compartilhados entre diversos usuários, criando modelos de negócios completamente novos e revolucionando o mercado.

O Crowdsourcing

Para entender melhor a economia colaborativa, é preciso analisar antes um conceito em torno do qual funcionam todos os principais negócios digitais da atualidade: o crowdsourcing.

Crowdsourcing significa, literalmente, a coletividade (crowd) como fonte (source). Ou seja, as empresas que prestam serviços baseados em crowdsourcing não investem na produção e nem imobilizam capital com manutenção de estoques.

Na internet temos uma infinidade de exemplos de como este conceito é a chave da economia compartilhada:

– O Google, gigante da internet, é mais famoso por sua ferramenta de busca, que não produz nenhum dos resultados que exibe, mas sim os organiza, indexa e entrega ao usuário.

– O Facebook é a maior rede social do mundo e não produz nenhum conteúdo: tudo o que está disponível no site é postado pelos próprios usuários.

– O Youtube é de longe a maior plataforma de vídeos do planeta, e também não produz nenhum vídeo.

Os usuários mais frequentes da internet, especialmente os nativos digitais (Geração Z), ou seja, aqueles que nasceram num mundo interconectado e não conhecem a vida sem internet, já estão totalmente adaptados a este conceito.

O crowdsourcing já é a base do funcionamento da internet há muitos anos. Porém, agora, ele está começando a se estender também aos negócios “físicos”, e está deixando completamente apavorados alguns setores da economia, que não sabem como lidar com esta nova realidade que, lamento informar aos resistentes, não tem volta.

Uma revolução está começando agora

A migração deste tipo de abordagem de negócios, saindo da internet para o “mundo real”, marca o início de uma verdadeira revolução na economia global. Há uma infinidade de novos negócios que estão surgindo, baseados neste modelo.

O Uber é o mais famoso deles, até o momento. Com um modelo de negócio inovador, o serviço elimina do sistema as cooperativas e donos de frotas de táxi, interligando diretamente motoristas e passageiros.

Isso está causando grandes transtornos e muitos protestos por parte dos prejudicados nesta nova organização do mercado. Mas quem está lutando contra o Uber está combatendo o “inimigo” errado, pois ele é apenas uma amostra do que está por vir. Para ficarmos apenas neste mesmo segmento, veja estes dois exemplos:

Waze, do Google, oferece um serviço parecido com o Uber

O aplicativo Waze, de propriedade do Google, desenvolveu e já está testando, em Tel Aviv (Israel) uma funcionalidade para que usuários que fazem trajetos parecidos diariamente peguem caronas pagas através do app (leia mais aqui, em inglês).

Táxis sem motoristas

O Google (novamente ele) já tem, prontinho para funcionar, um carro que não precisa de motorista. Isso mesmo, o carro “se dirige” sozinho, e você pode seguir viagem tranquilamente lendo seu jornal, acessando sua rede social favorita ou assistindo um filme pelo Netflix no tablet.

Mas voltando à questão do transporte compartilhado, tenho mais uma péssima notícia para os taxistas: a prefeitura de Nova Iorque acaba de fechar um acordo com o Google para substituir, até 2016, 5.000 táxis convencionais da cidade pelos carros autônomos do Google (leia mais aqui, em inglês).

Os taxistas de lá precisam se reinventar rapidamente, é fato. Mas quanto tempo vai demorar para essa novidade chegar também ao Brasil? Façam suas apostas.

Há muito mais acontecendo

O Uber é o exemplo mais conhecido de inovação em economia compartilhada atualmente, devido à polêmica que vem causando no país. Mas há muitas outras empresas, em diversas áreas, seguindo o mesmo caminho. Já existe o “Uber dos hotéis”, dos restaurantes e até dos bancos. Quer ver?

AirBnb

AirBNB é um aplicativo que conecta viajantes a donos de imóveis em destinos turísticos dispostos a alugar suas casas, apartamentos ou mesmo um quarto por uma temporada ou alguns dias. Isso elimina os hotéis da lista de itens que os viajantes devem contratar e subverte o mercado de turismo, notadamente a hotelaria.

EatWith

EatWith é um serviço em estágio inicial, disponível em apenas 4 cidades do Brasil até a data da publicação deste artigo.

O serviço conecta chefs de cozinha a apreciadores da gastronomia, que podem “reservar um assento na mesa do chef”. Ou seja, jantares são marcados na casa do chef, que recebe os clientes e, dessa forma, elimina os restaurantes do circuito.

Zopa

Se o Uber comprou uma briga pesada contra os taxistas, o que dizer do Zopa, que está fazendo o mesmo com as instituições bancárias?

Este aplicativo se propõe a ser um “banco P2P”, que conecta os usuários diretamente entre si, no mesmo modelo que subverteu todo o mercado fonográfico alguns atrás, através do download de músicas em MP3 por meio de softwares P2P (peer to peer). Ou seja, conexão direta entre os usuários.

Agora raciocine comigo: quando você aplica seu dinheiro em um banco, mesmo nos investimentos mais rentáveis, os juros que você recebe não chegam a 1% ao mês. Por outro lado, quando você fica em débito com um banco, por exemplo, no cartão de crédito, dificilmente vai pagar menos de 10% de juros ao mês. Bastante desigual, não?

Neste cenário, qual o potencial de um aplicativo que elimina o banco como atravessador na concessão de crédito, permitindo que os usuários façam empréstimos diretamente entre si?

Admirável mundo novo

Está ficando cada vez mais claro que diversos setores da economia precisam se reinventar se quiserem sobreviver. O exemplo mais fácil atualmente é o dos taxistas, que podem literalmente desaparecer, dependendo de como evoluírem os sistemas de caronas pagas e também os carros autônomos

Nossa sociedade, tão orientada ao consumo desenfreado, não percebe (ou finge não perceber) que o modelo econômico atual não se sustenta.

O planeta não suporta a destruição cada vez mais rápida dos recursos naturais e, por outro lado, talvez o homem moderno esteja se dando conta de que “viver para consumir” ao invés de “consumir para viver” não faz sentido. Cada vez mais precisamos de psiquiatras e anti-ansiolíticos para aplacar as angústias que o modo de vida da nossa sociedade nos causa.

Talvez seja muito otimismo dizer que a economia colaborativa seja a solução para todo este cenário. Mas ser otimista ainda é permitido, certo? Então… #euacredito!

*Profissional de Marketing Digital, trabalhando online desde 2001. Social e conectado, ligado nas tendências do mundo digital. Internet + comportamento. Novidades, tendências, tecnologias e tudo o que movimenta o mundo digital, de forma simples e acessível. Possui o blog Conect-E.

Fonte: artigo publicado no Jornal O Tempo

 

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