Ivan Moura Campos: o mestre Yoda da inovação mineira

Téo Scalioni
maio15/ 2015

Ele se autodenomina um sênior nerd.  Sênior, referente à experiência e ao tempo que tem no mercado.  De forma alguma, um “sabe tudo”, que não está mais buscando conhecimento e aprendizado. Esse é Ivan Moura Campos, ou simplesmente, o professor Ivan, que aos 71 anos e incansável, está próximo de mais uma nova empreitada: a startup Hekima, uma empresa de tecnologia que desenvolve plataformas de mineração de dados utilizando big data. “Trata-se da minha próxima encarnação”, brinca ele, que define cada importante etapa de sua vida dessa maneira.

Entre as “encarnações” está a formatura na década de 60 em metalurgia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), passando pelo PhD em Ciência da Computação pela Universidade da Califórnia (EUA) e a trabalhos governamentais como Secretário de Política de Informática do Ministério da Ciência e Tecnologia. Teve empresas e as vendeu por duas vezes. A primeira delas, a Miner Technology, comparadora de preços (vendida à UOL.), e a famosa (hoje um case) Akwan. Essa, uma ferramenta de busca na web criada na UFMG, que não apenas foi adquirida pela Google, como se tornou base tecnológica da gigante americana no Brasil. Até hoje, essa é a única aquisição da companhia na América do Sul.

“Lembro que alunos nossos começaram a apresentar artigos em congressos internacionais mostrando o trabalho da Akwan. Começamos a chamar a atenção. Lá também estavam pessoas da Google, que queriam iniciar e fortalecer as operações na América do Sul, e ela comprou a nossa empresa. Foi mais fácil para a Google, que pegou algo pronto”, lembra o professor Ivan, que, após a venda, ficou, conforme uma cláusula de contrato, por dois anos na organização do Vale do Silício.

Aposentado da Universidade Federal, o professor tem amplo conhecimento na área de inovação. Para ele, hoje o ecossistema mineiro é bastante desigual de acordo com o nicho empresarial que se olha. Alguns são mais inovadores pela qualidade dos cursos superiores de graduação e pós-graduação em áreas que Minas é referência internacional. Por isso, é natural que o Estado, devido à qualidade desse mundo acadêmico, faça, por meio dos recursos humanos formados, com que a capacidade de inovar penetre nos nichos de mercado que são alvos desses cursos.

Ele cita áreas da engenharia, ciências da vida, ciências biológicas e ciências agrárias como destaque no Estado. Segundo Campos, na UFMG há uma excelência já antiga na engenharia. Ele relembra que o curso de metalúrgica da Federal começou a se relacionar com o mercado siderúrgico e de mineração desde a década de 60. “Existiam pesquisas influenciadas já naquele tempo pelas demandas da indústria, pois eram levados os conhecimentos sofisticados, a maioria de doutorandos e doutores do exterior, quando a pós- graduação no Brasil era ainda incipiente”, conta.

O professor percebe que no Brasil, ainda espera-se muito que as inovações venham da academia. O que ocorre de forma diferente nos Estados Unidos e países desenvolvidos, onde 85% delas ocorrem na indústria e 15% nas universidades e institutos de pesquisa. Por aqui, é o contrário: 85% na academia e 15% no mercado.

“O que isso quer dizer? Que a indústria brasileira não inova. Temos a Embraer, que é como se fosse uma joia no interior de São Paulo” afirma o professor, lamentando que o poder de irradiar e espalhar as novas tecnologias da empresa acaba se restringindo à região de São José dos Campos.

O momento e a hora das startups

Mas de acordo com ele, é preciso que as mudanças, mesmo que sejam lentas, comecem a ocorrer. Campos lembra que isso pode ser observado em relação às startups, nas quais jovens que estão chegando com ideias na área de TI, entram com a vontade de empreender. “As empresas nascem com essa atitude. A maioria não vai para frente. Mas essa fermentação que é importante acontece. O desejo de querer empreender”, acredita o professor, que vê em Minas, mesmo não sendo a principal economia do País, um ecossistema que vai extremamente bem quando o assunto é startups e empreendedorismo.

Inquieto, Ivan Campos verificou uma oportunidade para surfar nessa onda das startups.  Agora, no ramo do big data, um novo conceito que se permite verificar e cruzar dados pela internet gerando importantes informações para diferentes tipos de negócio.Assim fundou a mineira Hekima, que vai possibilitar que empresas e instituições acompanhem em tempo real, conversas em redes sociais sobre elas, entendendo o comportamento do público, gerando insigths e relatórios a partir de uma análise dos dados.  ”Várias coisas vão poder ser previstas. Será importante para definir estratégias ou gerenciar crises. Somos contratados para prestar um serviço’, explica o professor, salientando que o big data trata-se de uma realidade, que vai ajudar não apenas empresas, mas a humanidade.

Campos não se sente constrangido em trabalhar com pessoas mais jovens. Ao contrário, vê como uma troca de experiências. Na Hekima, além de sócios com menos de trinta anos, há uma equipe nessa mesma faixa etária, entre programadores e desenvolvedores.

Como também programa, ele sempre se atualiza para não ficar atrás. “E discuto com o mais jovens de igual para igual. Eles me respeitam muito. Meu apelido é Yoda”, brinca ele, referindo se ao grão-mestre fictício e experiente da saga Guerra nas Estrelas.

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