Inovação: uma forte parceira no combate ao câncer

Téo Scalioni
maio03/ 2017

À frente da Oncomed, clínica especializada na prevenção e tratamento do câncer, o Dr. Amândio Soares Fernandes Júnior observa, com otimismo, os avanços da medicina relacionados à doença. Nessa entrevista, ele fala como a inovação tem ajudado no combate ao câncer e da importância de se continuar a tratar cada paciente como único.

Fala-se hoje muito sobre a cura do câncer. Sabemos como a inovação e as tecnologias têm ajudado no combate à doença. O que o senhor destaca de mais promissor nesse sentido?

Quando falamos em avanço, estamos falando em tratamento, não na abordagem de prevenção, que é extremamente importante também. Nós identificamos, nas últimas décadas, que o câncer não é uma doença única. Por exemplo, dentro do câncer de pulmão, temos vários tipos de tumores, assim como no de mama. Com isso, você oferecer uma abordagem mais personalizada sobre essa doença. É o que a gente pode oferecer de melhor.

Nos dê exemplos, por favor ….

No câncer de mama, conseguimos identificar alguns subgrupos de pacientes que sofrem algumas alterações celulares que, quando você oferece um tratamento específico, traz grandes benefícios para o paciente, o que melhorou de forma significativa o prognóstico. Da mesma forma, no câncer de pulmão. Conseguimos identificar algumas alterações nas células que mostram que esse câncer se beneficia com a terapêutica específica. Hoje, nós chegamos ao ponto de identificar que 5% do câncer de pulmão têm uma alteração genética específica para 5% dos pacientes. Outros 1% dos pacientes podem ter uma outra mutação. Com isso, você tem uma droga especifica para essa alteração e estamos conseguindo identificar que é um conjunto de doença bastante heterogênia e que vai precisar uma abordagem cada vez mais específica.

Qual o diagnóstico atual que o senhor faz sobre o câncer?

O câncer hoje é uma realidade porque a nossa população está envelhecendo. A expectativa de vida está aumentando e, apesar de o câncer poder comprometer qualquer faixa etária, é uma doença predominantemente no paciente idoso. As pessoas estão vivendo muito mais. Por isso, a incidência do câncer tem aumentado significativamente.  Além disso, os hábitos da vida moderna têm contribuído também para que pacientes de uma faixa etária mais jovem, infelizmente, tenham a doença A realidade é que o número de casos deve aumentar. Segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde, em 2020 o câncer vai superar em mortalidade as doenças cardiovasculares, que são as que mais matam no mundo hoje. Em alguns países, o câncer já mata mais do que doenças cardiovasculares.

E em relação à real possibilidade de cura?

Não tenho a menor dúvida de que teve uma grande evolução quando se fala no combate à doença. Atualmente, podemos conseguir, em termos de cura, por dados globalmente conhecidos, que 66% dos cânceres curam. Isso, de todos os cânceres.

Existe algo sobre uma possível vacina contra o câncer?

O que a gente tem de mais novo é uma abordagem sistêmica do câncer. Nós temos a imunoterapia, uma modalidade de tratamento no qual você usa o próprio sistema imunológico do paciente para destruir as células tumorais. Uma quebra de paradigma. Diferentemente do que tínhamos antes, o que usávamos era medicação, drogas que iriam agir nas células cancerosas. Hoje, vamos fazer com que o próprio sistema imunológico do paciente volte a reconhecer a célula tumoral como estranha ao nosso organismo e, com isso, atacá-las. Durante décadas foi tentado estimular o nosso sistema imune para que ele atacasse as células tumorais e, nesses anos todos, infelizmente, não tivemos o sucesso que gostaríamos.

Qual foi essa evolução?

Até que na década de 90, foi descrito em nossas células de defesas um receptor que se chama check-point e, com a identificação desse receptor, tivemos um grande progresso, porque percebeu-se que era através desse receptor que as células tumorais conseguiam burlar o nosso sistema imunológico. Olha como a célula tumoral é inteligente: ela produz uma substância fazendo com que ela  deixe de ser reconhecida como corpo estranho ao nosso sistema imunológico. Com isso, ela pode proliferar tranquilamente no nosso organismo.

 

A Oncomed tem um projeto de construir um hospital na Serra do Curral, onde está desativado o Instituto Hilton Rocha. Por que esse hospital?

Hoje, quando você precisa hospitalizar uma pessoa em Belo Horizonte é muito difícil, pela carência de leito, que é de cerca de 3.000. Nossa proposta é diminuir essa carência, e o desejo é poder oferecer o tratamento integral ao paciente. Um hospital que tenha desde os cuidados preventivos, que contribuem para o diagnóstico precoce, e aumentar a chance de cura, assim como oferecer uma assistência integral, desde o diagnóstico de todas as modalidades de tratamento com aparelhos de ponta, de radioterapia de última geração.

 

Ele vai tratar apenas de câncer?

Teremos nossa especialização no câncer, mas vamos manter a oftalmologia, que era um legado do Dr. Hilton Rocha.  Também vamos trabalhar com cardiologia, pela alta incidência na nossa população, e por ser também o desejo dos moradores do bairro Mangabeiras, que nos fizeram essa solicitação.

Há alguma previsão de quando o hospital inicia suas atividades?

Gostaria de chamar a atenção para o fato de que esse é um projeto que foi amplamente avaliado pelos órgãos reguladores do município de Belo Horizonte. Também foi avaliado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), responsável pelo patrimônio histórico nacional. A conclusão que chegaram, inclusive os órgãos relacionados ao meio ambiente municipal, é que todas as propostas que temos vão requalificar, trazer benefícios  e melhorar o paisagismo daquela região. Não foi constatado nenhum tipo de irregularidade, o que nos deu o direito de continuar as obras que já estão se iniciando. A estimativa é  começar a funcionar em dois anos.

Como a inovação pode ser útil no tratamento do câncer?

Com a inovação, estamos selecionando melhor o paciente e qual a modalidade terapêutica que ele deve receber. Conhecendo melhor a doença, o seu comportamento,  evidentemente, vamos trabalhar com uma medicina personalizada. Oferecer para o paciente aquele tratamento na extensão que ele precisa.  Evitando tratamentos extremante tóxicos, que tenham uma gama muito grande de efeitos colaterais e com uma taxa de benefícios muito pequena. Ou seja, com isso, a gente vai, sem dúvida nenhuma, proporcionar ao paciente o tratamento de que ele precisa.

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